segunda-feira, 15 de janeiro de 2018 0 comentários

Os Dois Coronéis (Publicado no Jornal Folha dos Lagos de 13/1)

Não é incomum as pessoas qualificarem de coronelismo uma experiência política de domínio indesejado. Se por um lado é difícil crer num aspecto positivo, não obstante se faz necessário um ponto de inflexão: Nem todo coronelismo é igual. Sem maiores filtros vamos pensar apenas nos dois mais conhecidos, o urbano e o rural.

Podemos afirmar sem medo de errar que o coronelismo urbano é um produto deformado do rural. Em ambos temos a constituição de famílias políticas que vão emplacando de modo cada vez mais capilar os membros diretos, colaterais e associados da parentela. Da mesma maneira, nas duas modalidades temos o controle praticamente absoluto da coisa pública como uma extensão dos interesses privados.

Insistindo ainda um pouco mais nas semelhanças, temos a transformação da justiça, assim como todos os demais poderes e instâncias da estrutura republicana, como extensões de domínio, ou seja, basta que se tenha dinheiro, poder de fogo (aqui tomado de maneira literal), ou bons vínculos de reciprocidade para que se coloque a interpretação da legalidade dos atos sob o crivo da vontade pessoal. O resultado mais visível é o escárnio cínico dos mandatários quando confrontados com seus próprios malfeitos, cientes de que estão acima de tudo e de todos, portanto, com plena capacidade de justificar o que bem entenderem.

Sem prolongar esse olhar das duas faces no espelho, encontramos outra semelhança fundamental, a formação de currais. É muito importante que existam currais nessa modalidade de se fazer política. Entretanto, há uma baia para cada tipo de animal. Existe o espaço para os rebanhos do gado xucro, aquele que é importante no volume, mas facilmente controlado pelos demais animais de estrebaria: cavalos, cachorros e outros a quem se pode delegar algum poder.

Entretanto as semelhanças param por aí. E justificando o porque o coronelismo urbano é um furto pervertido do rural é forçoso reconhecer, sem nenhum mérito adicional – registre-se – que no coronelismo rural ainda prevalecem dois elementos completamente ausentes no urbano, o cuidado com as pessoas e, consequentemente, o zelo com a oferta do que elas precisam. É do brio do coronel rural cuidar, proteger... Uma contrapartida que mais se assemelha ao proletariado romano, aos magistrados e seus clientes, uma relação de contrapartida onde um apadrinha o outro e a troca de benefícios se dá na escala definida pela posição de um e pela necessidade do outro.

Já o coronel urbano possui um carisma cínico. Abraça e beija seu povo na mesma intensidade do que o priva do básico. Após a conquista do poder, ele não tem o senso da contrapartida, do compromisso, pelo contrário! Torna-se unilateralmente violento, arbitrário, comportando-se não como um dispersor de benefícios, mas como um saqueador insaciável. Se o prestígio dá aos coronéis rurais a continuidade e capilaridade de seu poder, aos urbanos só resta o uso da paga mercenária, da ameaça de mais terror e caos e da quase inevitabilidade de sua presença pela capacidade de produzir dor e escassez.


Os dois  não são desejáveis. Mas apenas um ainda se faz muito mais vivo e presente.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018 0 comentários

O Ano da Sobrevivência (Publicado no Jornal Folha dos Lagos de 06/1)


Em 2018 a região vai vivenciar as eleições para prefeito. Pelo menos indiretamente. Isso porque praticamente não se observa no horizonte uma candidatura viável com interesse exclusivo na representatividade legislativa. Assim, mesmo que sejam eleitos, esses representantes vão “esquentar o banco” federal ou estadual apenas para turbinar um projeto político/eleitoral de um pouco mais adiante. Arriscaria o prognóstico que a região ficará sem representante na próxima legislatura, levando a compromisso com deputados “de fora” para que possam deixar algum espaço em seus redutos para olhar para nossas bandas. Isso não é novidade propriamente. Nossas terras já foram bons currais externos e essa vocação também pode se tornar a turbina eleitoral de 2020.

Seja como for, todas as prefeituras da região tem um tempo limite de seis meses para resolver suas pendências. O problema é o para que resolver. Aí se encontra a encruzilhada. No modo de fazer política à brasileira, o poder público se ajeita em função do calendário político, portanto, responde a projetos de poder puro e simples. Assim, qualquer melhoria será apenas melhoria, quando os tempos de hoje gritam por mudança significativa, por transformação, por abertura de espaços para pessoas não apenas íntegras como também absolutamente competentes no que fazem. Falta à política a noção de serviço. Político deveria se comportar como servidor e não como um ungido de cabeça coroada, a frente de uma corte de bajuladores interesseiros.

Com base em dados, indicadores e reunindo os cérebros certos, foram muitos os governos em todos os níveis e em todas as nacionalidades ao longo da história que constituíram projetos não apenas inovadores como também decisivos para o bem-estar de suas comunidades. Assim, conseguia-se enxergar uma identidade de grupo, uma noção de onde se parte e para onde se vai. O que mais vemos, no entanto, é um caleidoscópio de pequenas peças, se mexendo individualmente para dar alguma visão de volume ao todo. Mais ainda assim, peças soltas.

Acreditam os paranormais da economia, em sua vidência, que 2018 será um ano de melhora. Particularmente devíamos colocar a devoção em outros santos. É de uma inacreditável ingenuidade alguém conceber capitalismo sem crise. Portanto elas, cedo ou tarde, farão parte do processo. E como gestão é administrar a escassez para que todos possam ter algo de bom, são necessários talento, integridade e inteligência, mas, acima de tudo, planejamento. O que não é mais possível é tentar colocar roupas curtas em elefantes. E isso significa coloca o modelo político tradicional na berlinda;

Sim, pois para sobreviver ele precisa continuar a reproduzir suas práticas e, para isso, precisa de grandes recursos. Mas como esses recursos não são mais graciosos é preciso produzir essas condições. Só que para produzir essas condições os governos não podem mais ser o que são. Desse modo, manter as coisas como são exigem cada vez mais compromissos externos, loteamento de governos e tudo o mais que apenas servem para manter pessoas e não uma efetiva perspectiva de transformação e desenvolvimento.


Esse ano promete. Vamos apenas ver o que cumprirá.  
 
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